TELEANÁLISE: A SEMIÓTICA DO JOGO DO BICHO E A GREVE DOS JEGUE

Se há coisa que o telespectador comum deve ser incapaz de compreender são os termos em que se dão os debates de candidatos a cargos eleitorais na TV. Talvez uma metáfora da contravenção ajude a compreender a dificuldade de apreensão, por parte da audiência, do sentido existente entre as perguntas e as respostas entre os candidatos. Para quem nunca teve o jogo do bicho como tema e rotina nos hábitos e práticas cotidianos, soa estranhíssimo ouvir uma pessoa, geralmente mais velha, explicando que sonhou com um determinado assunto, sem nenhuma relação aparente e direta com algum representante da fauna, e que, com base nesse sonho, irá apostar em um dos animais constantes na cartela de opções do Jogo do Bicho. E numa associação livre e estranhíssima, ancorada em teorias hipotéticas/dedutíveis impossíveis de serem compreendidas por quem não compartilha do que deve ser uma semiótica especial dominada apenas pelos iniciados apostadores do jogo do bicho, o sonho com uma folha conduz a uma cobra, o sujeito vai lá, joga, e até calha de acertar.
Do mesmo modo, ou seja, ancorada numa espécie dessa semiótica incompreensível semelhante à compartilhada pela comunidade de sonhadores, intérpretes e apostadores do jogo do bicho, tão obscura e sinuosa quanto, é a dinâmica entre as perguntas, as respostas, as tabelinhas, as réplicas e tréplicas entre os candidatos nos debates. Um parlapatão fala que o outro é corrupto, que tem helicóptero, fazendas, empregou a mãe e o papagaio e o outro responde dizendo que se for eleito vai fazer isso e aquilo. Na réplica, o intempestivo perguntador cita um bispo em greve de fome e os escândalos imobiliários em Salvador. Outro acusa um quarto de inventar números e este responde perguntando por que seu interlocutor não foi à Brasília pedir obras. Ou seja, a lógica estruturante entre os debatedores é algo entre um dizer alho e o outro, bugalhos ou um surf nonsense sobre as perguntas com uma fuga que somente a semiótica dos sonhadores que deliram com um escorpião e apostam num veado é capaz de explicar como se chegou de uma coisa a outra.
E para fechar o espetáculo eleitoral, o imbatível frasista Lula da Silva conseguiu juntar Obama e o jegue numa mesma fala. Suado e embalado numa camisa rubra, o presidente da República tripudiava na quarta-feira de sua popularidade e lembrava de quanto Obama disse-lhe que era “o cara”. Imagine o que não diria agora, com os índices de aprovação que tem. E fechou o raciocínio: sua gestão foi tão boa que, no nordeste, os jegues estão planejando uma greve, pois estão todos sendo substituídos como meio de transporte por motocicletas. Ou seja, se tem alguém insatisfeito com o seu governo? Só os jumentos, que estão perdendo seu lugar no mundo.

Autora : Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.
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